sábado, 16 de outubro de 2004

Caviar Shop

Às 11 da manhã – horário local – desembarquei em Zurich pra fazer minha conexão. Aliás, o aeroporto de Zurich é feito exatamente pra isso (todo mundo que tava no meu avião desceu lá pra pegar algum outro vôo, acho que na Suíça não ficou ninguém) e tem até um metrôzinho pra levar as pessoas de um terminal pra outro. Uma coisa muito chique, como inclusive são as lojas desse aeroporto que tem até loja que só vende caviar, sem contar os chocolates suiços (hmmmm) e as Bvlgaris da vida…

Lá fui eu pegar meu aviãozinho pra Praga. Aviãozinho é o termo certo, aliás. Acho que devia ser pouco maior que um busão da Cometa.

Vôo SP-Zurich

Na fila do embarque, um cenário curioso. Tinha quatro travecos na minha frente conversando animadamente. Acho que iam fazer conexão em Zurich pra Itália. E logo atrás de mim tinham 2 meninos adolescentes, judeus ortodoxos com aqueles rolinhos no cabelo e tudo.
Entrei no avião, procurei minha poltrona. Era ao lado de um rapaz com luzes no cabelo e cara de choro. Achei que ele era argentino. Não era, era espanhol e se chamava Manuel. Assim que eu me sentei, a criatura passou a me contar num espanhol enroladésimo todo o caso de amor que ele teve com uma brasileira. Isso sem eu perguntar absolutamente nada. Eu nem estranhei muito, pois eu sempre atraio gente desse tipo pra perto de mim, sou pára-raio de doido mesmo. Quando percebi, o avião já tinha decolado e eu nem tinha tido tempo de rezar e fazer aquele meu pedido de sempre para Deus (“senhor, se for para o avião cair, que seja pelo menos no vôo da volta, amém”). O espanhol falava muito e muito rápido. Bem... pausa para contar a história do Manuel.
Ele era separado, tinha dois filhos e morava em Barcelona. Conheceu a brasileira lá, tiveram um tórrido romance, ela voltou para Minaçu em Goiás. Ele então passou a mandar 1.100 reais por mês para a figura. Até o dia que ele decidiu pegar um avião e vir visitá-la sem aviso prévio. Disse que foi recebido friamente. Mesmo assim ele ficou, e ela passou a arrumar visitas a todos os parentes da região, sempre dizendo a ele que precisava fazer uma comprinha no supermercado para levar. Vinte dias, muitos supermercados para toda a famíla e ainda alguns presentes para os filhos da moça depois, o Manuel voltava pra Barcelona 25.000 reais mais pobre, segundo ele. Aí eu entendi o motivo da expressão de choro naquela cara de fronha amassada do rapaz.
Ele me contava detalhadamente quanto gastou com o quê e ainda parava pra fazer a conversão real x euro. O cara não calava a boca... tadinho, mas como ele era mala! A primeira pausa na conversa eu consegui fazer só depois de 1 hora que ele tinha começado. Coloquei o fone de ouvido, pra ver se ele se mancava. Escolhi assistir um filme (os aviões da Swiss são muito bacanas, dá pra escolher entre várias opções de programa, música, filme e games. E você inicia o filme a hora que você quiser além de poder fazer uma pausa pra dar aquele pulinho no WC. É tipo um dvd player individual, uma coisa muito moderna!). Comecei a assistir “Terminal”, o Manuel começou a ver “Spiderman 2”. Vendo que eu dava umas risadinhas com o meu filme, ele se empolgou, trocou de filme e iniciou também o “Terminal”. Detalhe: eu já estava uns 20 minutos na frente dele. Mesmo assim, o infeliz ria e como se não bastasse me cutucava para eu rir também, apesar de estarmos em partes diferentes do filme… Nessa hora comecei a achar pouco a moça só ter extorquido dele 25.000 reais em 20 dias, ele estava do meu lado só há 2 horas e eu já tava querendo uns mil reais dele.

Bem, andando pela aeronave achei dois lugares milagrosamente vagos (o vôo estava cheio). Mais do que depressa, peguei minhas coisinhas, tirei minhas botas gigantes, deitei, me cobri e tomei o remedinho pra capotar. Não deu nem dez minutos e quem aparece pra me tirar de lá? Os meus amiguinhos judeus. Mas foram super educados, não falaram nada inicialmente, ficaram parados ali, só me olhando. E eu deitadinha, coberta e com aquele treco de tapar os olhos para não entrar luz que eles, os chiques da Swiss, dão pra gente no kit de avião. Dei aquela abridinha de olho e perguntei: “Pelo jeito esse lugar é de vocês, né?”. E eles: “Sim!”. Ok, lá vou eu, liinda, com o tapa-olhos feito uma tiara, descalça e com as botas na mão, acordar o Manuel pra ele me dar o meu lugar de volta...

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Avião

Muita gente não sabe, mas eu me cago de medo de viajar de avião. Graças a Deus não é nada assim que me impeça de viajar, eu só não gosto. Imagino que morrer num acidente aéreo não seja uma forma de bacana de passar pro outro lado. Primeiro porque quando o dito cujo começa a cair deve bater aquela consciência de “fudeu, vou morrer, que merda”. Não deve ser instantâneo, mas também não deve dar tempo pra mais nada, ou seja, rolam uns minutinhos de pânico puro e espera. Isso deve ser o pior. Depois porque deve ser uma morte daquelas bem doloridas. Pelo menos é o que mostram os filmes e os noticiários. Enfim, apesar disso eu não deixo de viajar de avião. Sempre torço pra viagem passar rapidinho. O problema é que eu nunca durmo. Posso estar moída de cansada e fico lá com os olhões estatelados durante 12 horas a fio. Por isso, Dramin na veia. Quase sempre dois deles, pois a minha auto-sabotagem é infalível. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Mochilagem

Férias em euro podem ser uma grande presepada, ainda mais nesse momento de euro quase chegando a 4 reais. Mas, citando o Ricardo Freire, toda viagem é uma extravagância. “O atestado de perdulário é lavrado no exato momento em que você decide viajar. Não existe truque de contabilidade que justifique torrar uma parcela tão significativa do seu rendimento anual em algo que só se materializa em fotografias”.
Olhei o extrato no banco: a restituição do IR tava lá. A grana daria pra ficar uns quinze dias. Pra ficar um pouco mais eu teria que me apertar um pouquinho. Teria dado até, mas preferi fechar nisso. Veio um pânico de ficar sozinha mais tempo do que isso. Eu me conheço afinal.
Há que ser dito que o tipo de viagem que eu costumo fazer é dos mais econômicos, é mochilagem mesmo. A acomodação é em albergue, o transporte é de trem e busão. Táxi nesse cenário é coisa de luxo e são só permitidos dois durante toda a viagem, o táxi pós-aterrisagem e outro antes de voltar pro Brasil. Isso se o acesso ao aeroporto não for possível de ser feito de outra forma, senão nem isso. Comida também tem orçamento, mas isso não quer dizer que é necessário passar a viagem toda comendo no Mac Donalds (isso ninguém merece e eu não estou a fim de bancar o Morgan Spurlock).

Pra resumir, mochilar é uma categoria de viagem que tem certas regras a serem cumpridas. A principal delas é: a maior grana que você vai gastar deve ser concentrada nos passeios. Dormir em albergue não mata e não faz assim tanta diferença já que o plano é acordar de manhã, bater perna o dia inteirinho, chegar à noite podre no albergue, tomar banho e dormir. Uma cama limpinha e quentinha e um banheiro também limpo pra usar é o suficiente. Na mochilagem mais do que isso é perfumaria. Princípios de backpacker.