Na fila do embarque, um cenário curioso. Tinha quatro
travecos na minha frente conversando animadamente. Acho que iam fazer conexão
em Zurich pra Itália. E logo atrás de mim tinham 2 meninos adolescentes, judeus
ortodoxos com aqueles rolinhos no cabelo e tudo.
Entrei no avião, procurei minha poltrona. Era ao lado de um rapaz
com luzes no cabelo e cara de choro. Achei que ele era argentino. Não era, era
espanhol e se chamava Manuel. Assim que eu me sentei, a criatura passou a me
contar num espanhol enroladésimo todo o caso de amor que ele teve com uma
brasileira. Isso sem eu perguntar absolutamente nada. Eu nem estranhei muito, pois
eu sempre atraio gente desse tipo pra perto de mim, sou pára-raio de doido
mesmo. Quando percebi, o avião já tinha decolado e eu nem tinha tido tempo de
rezar e fazer aquele meu pedido de sempre para Deus (“senhor, se for para o
avião cair, que seja pelo menos no vôo da volta, amém”). O espanhol falava
muito e muito rápido. Bem... pausa para contar a história do Manuel.
Ele era separado, tinha dois filhos e morava em Barcelona.
Conheceu a brasileira lá, tiveram um tórrido romance, ela voltou para Minaçu em
Goiás. Ele então passou a mandar 1.100 reais por mês para a figura. Até o dia
que ele decidiu pegar um avião e vir visitá-la sem aviso prévio. Disse que foi
recebido friamente. Mesmo assim ele ficou, e ela passou a arrumar visitas a
todos os parentes da região, sempre dizendo a ele que precisava fazer uma
comprinha no supermercado para levar. Vinte dias, muitos supermercados para
toda a famíla e ainda alguns presentes para os filhos da moça depois, o Manuel
voltava pra Barcelona 25.000 reais mais pobre, segundo ele. Aí eu entendi o
motivo da expressão de choro naquela cara de fronha amassada do rapaz.
Ele me contava detalhadamente quanto gastou com o quê e
ainda parava pra fazer a conversão real x euro. O cara não calava a boca...
tadinho, mas como ele era mala! A primeira pausa na conversa eu consegui fazer
só depois de 1 hora que ele tinha começado. Coloquei o fone de ouvido, pra ver
se ele se mancava. Escolhi assistir um filme (os aviões da Swiss são muito bacanas, dá pra escolher entre várias opções de programa, música, filme e games.
E você inicia o filme a hora que você quiser além de poder fazer uma pausa pra
dar aquele pulinho no WC. É tipo um dvd player individual, uma coisa muito
moderna!). Comecei a assistir “Terminal”, o Manuel começou a ver “Spiderman 2”.
Vendo que eu dava umas risadinhas com o meu filme, ele se empolgou, trocou de
filme e iniciou também o “Terminal”. Detalhe: eu já estava uns 20 minutos na
frente dele. Mesmo assim, o infeliz ria e como se não bastasse me cutucava para
eu rir também, apesar de estarmos em partes diferentes do filme… Nessa hora
comecei a achar pouco a moça só ter extorquido dele 25.000 reais em 20 dias,
ele estava do meu lado só há 2 horas e eu já tava querendo uns mil reais dele.
Bem, andando pela aeronave achei dois lugares milagrosamente
vagos (o vôo estava cheio). Mais do que depressa, peguei minhas coisinhas,
tirei minhas botas gigantes, deitei, me cobri e tomei o remedinho pra capotar.
Não deu nem dez minutos e quem aparece pra me tirar de lá? Os meus amiguinhos judeus.
Mas foram super educados, não falaram nada inicialmente, ficaram parados ali, só me
olhando. E eu deitadinha, coberta e com aquele treco de tapar os olhos para não
entrar luz que eles, os chiques da Swiss, dão pra gente no kit de avião. Dei
aquela abridinha de olho e perguntei: “Pelo jeito esse lugar é de vocês, né?”.
E eles: “Sim!”. Ok, lá vou eu, liinda, com o tapa-olhos feito uma tiara, descalça
e com as botas na mão, acordar o Manuel pra ele me dar o meu lugar de volta...
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